6. MEDICINA E BEM-ESTAR 16.10.13

	6.1 NEURNIOS A SALVO
	6.2 OS MESTRES DA RESSUSCITAO

6.1 NEURNIOS A SALVO
Em feito histrico, pesquisadores ingleses criam substncia que impede a morte das clulas nervosas. A faanha poder levar  cura de doenas como Alzheimer e Parkinson
Cilene Pereira

ESPERANA - Lder da pesquisa, Giovanna Mallucci est otimista. Acha que ser possvel criarum remdio que funcione em humanos, sem efeitos colaterais

Cientistas ingleses anunciaram na semana passada uma vitria que ficar registrada na histria da medicina. A equipe liderada pela pesquisadora Giovanna Mallucci, do conselho de pesquisa mdica da unidade de toxicologia da Universidade de Leicester, criou um composto capaz de impedir, em cobaias, a morte de neurnios. O feito abre a perspectiva de cura para diversas doenas causadas justamente pela destruio do tecido neuronal, como o Alzheimer, o Parkinson e a doena de Huntington. A experincia que levou  criao do composto foi publicada na ltima edio do jornal cientfico Science Translational Medicine, um dos mais respeitados do mundo.

 A substncia atua sobre um mecanismo associado  morte das clulas nervosas e que, nos ltimos anos, vinha sendo alvo de estudo intenso por parte dos cientistas ingleses. Doenas como o Alzheimer e o Parkinson apresentam, entre outras caractersticas, o fato de serem provocadas pela fabricao de protenas disformes. A produo de molculas diferentes do que era esperado leva o prprio crebro a ativar um sistema de defesa para impedir que a atividade continue. O problema  que, ao fazer isso, o rgo tambm interrompe a gerao de protenas sem problemas e fundamentais para o funcionamento dos neurnios. A consequncia  terrvel: sem contar com protenas vitais, as clulas nervosas acabam morrendo. Se o problema ocorre na rea do crebro responsvel pela memria, por exemplo, esta ser a funo prejudicada  e  isso o que acontece no caso do Alzheimer. No Parkinson, o prejuzo costumar aparecer em regies associadas ao controle motor, da o surgimento de sintomas como tremores e dificuldade de equilbrio.

No trabalho, os pesquisadores usaram cobaias com doena do pron  enfermidade neurodegenerativa cujo estudo, em animais, j apontou caminhos importantes para o entendimento do Alzheimer em humanos. Isso porque j se sabe que a morte neuronal nas duas doenas ocorre de forma semelhante. Os cientistas descobriram que uma enzima (PERK) apresenta papel fundamental na ativao do mecanismo de defesa cerebral contra as protenas disformes. A partir disso, desenvolveram um composto  administrado de forma oral  que impede sua fabricao. Os animais que no receberam a substncia passaram a apresentar perda de memria e problemas para se movimentar. Ao final de 12 semanas, morreram. Os que tomaram o composto sobreviveram e no apresentaram nenhuma sequela neurolgica.  a primeira vez que uma substncia dada a cobaias previne uma doena cerebral, disse Giovanna Mallucci.

O xito da experincia foi comemorado pela comunidade cientfica. A pesquisa nos d a primeira evidncia de que uma substncia com potencial real para se tornar um remdio  capaz de interromper a destruio progressiva de neurnios, afirmou o pesquisador Roger Harris, diretor do departamento de qumica do Kings College London, em Londres. Este achado ser julgado pela histria como o ponto de virada, um marco na procura por medicamentos que possam controlar e prevenir doenas como o Alzheimer.

O consenso, porm,  o de que h muito mais a se pesquisar antes que o composto se torne um remdio disponvel. Um dos obstculos a serem superados, por exemplo,  encontrar uma maneira de evitar que ele produza, em humanos, os efeitos colaterais observados nas cobaias. O mais severo foi o dano ao pncreas, o que levou  perda acentuada de peso e ao aparecimento de diabetes. No entanto, a cientista Giovanna est otimista. No acho impossvel criarmos uma droga que proteja o crebro sem causar esses efeitos colaterais, afirmou. O time comandado por ela continua pesquisando: est testando, em animais, o desempenho da substncia em outras doenas neurodegenerativas.


6.2 OS MESTRES DA RESSUSCITAO
Quem so os mdicos que, com a ajuda de novos recursos, como o resfriamento corporal, esto fazendo subir os ndices de sobrevivncia de pessoas que sofreram parada cardaca - mesmo uma hora depois de o corao ter parado de bater
Cilene Pereira

PROTEO INTEGRAL - No servio dirigido por Timerman, no InCor (SP), o paciente tambm  ajudado por equipamentos que auxiliam depois da parada cardaca. O mdico luta para que mais desfibriladores (aparelho que aparece na foto) estejam disponveis no Pas 

Nos servios dirigidos pelo mdico ingls Sam Parnia, nos Estados Unidos, e por seu colega brasileiro Srgio Timerman, no Brasil, a chance de morrer de uma parada cardaca  significativamente menor do que na maioria dos outros hospitais do mundo. Parnia chefia a UTI do hospital da Stony Brook University, em Nova York. Timerman comanda o laboratrio de pesquisa e treinamento em emergncia do Instituto do Corao (InCor), em So Paulo.

No centro liderado por Parnia, 33% dos pacientes vitimados por uma parada cardaca sobrevivem. S para se ter uma ideia, a mdia nos outros hospitais americanos  de 16% de sobrevivncia. No InCor, a taxa de indivduos que sobrevivem  de 30%. Os dois centros renem o que h de mais moderno para ressuscitar pacientes mesmo aps seus coraes terem parado de bater por uma hora. So exemplos dos avanos obtidos pela medicina nessa rea, progressos que, juntos, compem uma espcie de cincia da ressuscitao. Usados de forma correta, seus recursos esto sendo responsveis por trazer de volta  vida um nmero recorde de pessoas. No hospital vinculado  Universidade da Pensilvnia (EUA), por exemplo, em 1999 apenas 9% dos pacientes com parada cardaca sobreviveram. Em 2010, o ndice saltou para 38%.

Na ltima semana, os cardiologistas brasileiros foram informados das recomendaes mais recentes sobre o tema, divulgadas durante o encontro da Sociedade Brasileira de Cardiologia, realizado no Rio de Janeiro. As diretrizes contemplam conceitos novos, como o de compresses torcicas de alta qualidade (feitas de forma que o corao volte a apresentar pelo menos 100 batimentos por minuto) e a abolio da respirao boca a boca feita por leigos  estes dois procedimentos ainda na etapa de ressuscitao cardiopulmonar. Elas tambm enfatizam a importncia dos tratamentos a serem aplicados depois, j no hospital. Esse cuidado ps-ressuscitao  a grande novidade atualmente, explica o cardiologista Timerman.

O especialista se refere  aplicao de trs recursos: a oxigenao por membrana extracorprea (ECMO, em ingls), a hipotermia e o tratamento da causa que levou  parada imediatamente aps a volta dos batimentos. O primeiro se baseia no uso de um aparelho que promove a oxigenao contnua do sangue do paciente, medida que assegura o fornecimento de oxignio s clulas. A segunda tcnica tem como objetivo preservar as clulas nervosas, usando para isso o resfriamento da temperatura do corpo. Somadas s manobras da ressuscitao cardiopulmonar (compresses torcicas, respirao boca a boca feita por pessoas treinadas e uso de desfibrilador), estas duas etapas compem o que hoje  chamado de ressuscitao cardiocerebral (o foco  manter o funcionamento do corao e tambm do crebro). O ltimo passo  acabar com o que motivou o colapso cardaco.

 Os benefcios gerados a partir da aplicao de recursos como esses se estendem tambm s crianas. Um estudo realizado pela Universidade de Iowa (EUA) revelou que aquelas que esto hospitalizadas e que vierem a sofrer uma parada cardaca tm hoje trs vezes mais chances de sobreviver do que h trs dcadas, e com menos riscos de apresentarem sequelas neurolgicas. Depois de analisarem casos de 1.031 crianas que sofreram parada em 12 hospitais, os cientistas constataram que, em 2009, 43% delas tiveram alta. Em 2000, apenas 14% deixaram o hospital com vida. Vrios fatores contribuem para esse avano, como o melhor reconhecimento de uma parada cardaca por meio da leitura de aparelhos de monitoramento, melhor qualidade das compresses torcicas e o uso de desfibrilador, disse  ISTO Saket Girotra, lder da pesquisa.

Os especialistas querem ampliar essas vitrias. No Brasil, uma das lutas de Timerman  aumentar a disponibilidade de desfibriladores. A experincia por ele comandada no Metr paulistano prova que isso d bons resultados. H cinco anos, todas as estaes dispem de um desses aparelhos. De cada dez pessoas que sofrem parada cardaca em uma delas, quatro se salvam. No Brasil, de forma geral, de cada dez indivduos nessa condio, somente um sobrevive.

 Na Universidade da Pensilvnia, os mdicos estudam formas de aumentar o uso da ECMO e da hipotermia. A teoria por trs da ECMO  a de que o corao pode descansar e a causa da parada, revertida. E a aplicao desse recurso deve comear o mais rpido possvel, disse  ISTO David Gaieski, pesquisador do assunto naquela instituio. Seu colega, Mark Mikkelsen,  autor de um levantamento no qual verificou que o resfriamento corporal vem sendo pouco utilizado. Mas isso pode ser mudado, comeando pela educao dos profissionais, afirmou  ISTO.

Esforos como esses levam mdicos como Sam Parnia a pensar que, no futuro, a definio de morte poder ser diferente da atual. Os avanos na cincia da ressuscitao comeam a desafiar nossa percepo do que  vida e do que  morte e do que  possvel, disse  ISTO. Pode ser que dentro de alguns anos tenhamos que redefinir os critrios pelos quais consideramos as pessoas mortas.

